Após descontentamento com escolhas de secretários, emissários de Zucco pedem paciência
O anúncio dos primeiros secretários do governo Luciano Zucco está gerando tensão entre os partidos da coligação vitoriosa nas urnas. Ao escolher nomes de perfil técnico e sem consulta prévia aos aliados, Zucco causou desconforto em dirigentes e parlamentares que participaram da campanha.
Para tranquilizar a base, emissários de Zucco passaram a terça-feira (3) em reuniões na Assembleia Legislativa. Em conversas com os principais partidos da aliança (PL, PP, Republicanos, Podemos e Novo), o futuro chefe da Casa Civil, Leandro Sonne, e o indicado para a liderança do governo, Guilherme Pasin (PP), explicaram os critérios adotados por Zucco. Eles pediram paciência e afirmaram que haverá espaços no primeiro escalão, mas que a palavra final será do governador eleito.
— Deixamos claro que a escolha é do próprio governador. Ainda temos mais da metade do secretariado para preencher. Tem também autarquias, outras estruturas. Os partidos já estão enviando nomes. Não quer dizer que o governador vai aceitar. Vamos fazer análise dos currículos — explica Sonne.
Até agora, já foram anunciados os ocupantes de nove posições (veja a lista abaixo). Apenas três são vinculados a partidos: Leandro Sonne (Casa Civil) e Capitão Martim (Defesa Civil), ambos do Republicanos, bem como Luis Carlos Heinze (Gestão de Projetos Estratégicos), do PP. Todos são de escolha pessoal de Zucco, passando ao largo de eventual chancela partidária.
Em conversas reservadas, dirigentes partidários admitem que Zucco sempre deixou clara a preferência por formar um primeiro escalão com pessoas experientes na área de atuação das respectivas pastas. Um dos trunfos para manter essa postura foi a vitória no primeiro turno, com a maior votação da história do RS. Todavia, a falta de diálogo com as legendas, inclusive sem avisar de antemão os nomes dos escolhidos, disseminou descontentamentos.
Na sexta-feira (30), um dia após o novo governador anunciar a segunda leva de secretários, o presidente do Podemos, Everton Braz, enviou uma mensagem buscando entender o critério das indicações. Zucco ligou para Braz, reiterando que as escolhas eram técnicas, conforme havia adiantado durante a eleição.
O dirigente do Podemos disse entender a postura, mas salientou que gostaria de enviar uma lista de nomes do partido que conciliavam conhecimento especializado com capacidade política. Zucco se mostrou aberto a sugestões, sem se comprometer com nomeações.
Sei que foi assim que a gente venceu a eleição, mas estamos vendo indicações que não foram conversadas e não tiveram articulação partidária. A partir de agora precisa existir esse diálogo, porque gera apreensão. O que sustenta um governo são os partidos.
EVERTON BRAZ
Presidente estadual do Podemos.
Presidente do principal partido aliado, o deputado Covatti Filho (PP) afirma que a formação de um secretariado técnico foi compromisso de campanha de Zucco, chancelado pela coligação, e que haverá espaços políticos no segundo e terceiro escalões. Covattinho tenta equilibrar-se entre as reclamações de correligionários e a fidelidade ao governador eleito.
— Tenho feito reunião todo dia, ligação todo dia, porque a gente teve um monte de candidatos no PP que tiveram uma excelente votação mas não se elegeram e agora precisamos colocar em algum cargo para que possa ter liderança política e concorrer de novo na próxima eleição — comenta o deputado.
Outro fator de inquietação foram as férias de Zucco, que tirou uma semana para descansar com a família após ter se empenhado na campanha de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Para os aliados, a ausência do governador eleito e as incertezas em torno do redesenho do secretariado, com o esclarecimento sobre fusão de pastas e suas atribuições, impedem o avanço das discussões.
Como já adiantou que o secretariado terá no máximo 20 pastas, praticamente metade do primeiro escalão já foi formada. Para as áreas que restam, há nomes dados como certos, como Leonardo Pascoal no Planejamento e Cláudio Branchieri na Fazenda, ambos do PL e da cota pessoal de Zucco. Uma nova leva de nomes deve ser anunciada na próxima semana, quando Zucco pretende se reunir com os presidentes de partidos aliados.
— Não me parece que haja uma tensão. Repassamos aos deputados a visão do governador eleito. A indicação do primeiro escalão ficará adstrita a ele. É natural que aconteça um pequeno distanciamento, mas os partidos serão escutados e, se der para compor perfil técnico e político, assim será feito — diz Pasin.
Tendência é de poucas indicações de deputados
No núcleo duro de Zucco, há consenso de que não haverá loteamento do governo. Prática recorrente, a nomeação de deputados, permitindo que os suplentes assumam no Legislativo, deve ficar restrita a poucos nomes.
A ida do Capitão Martim para a Defesa Civil, por exemplo, permitirá que Eliana Bayer ocupe a vaga dele na Assembleia, resolvendo uma pendência do Republicanos. Outra demanda do partido, a deputada federal Francieli Bayer, que não se reelegeu e ficou na segunda suplência, não deve ser contemplada, ficando de fora do secretariado e sem assumir uma vaga na Câmara. A prioridade agora é a abertura de espaço para a posse de Sandro do Covatti, primeiro suplente de deputado estadual pelo PP.
Há atritos até mesmo dentro do partido do novo governador. Durante a campanha, Zucco prometeu à direção da Santa Casa de Porto Alegre a indicação do titular da Saúde. A escolhida foi a presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais sem Fins Lucrativos do RS, Vanderli de Barros.
Membros do PL, porém, descobriram que Vanderli concorreu a prefeita de Três de Maio pelo PT, em 2008, e estão dispostos a barrar sua nomeação.
Aproximação com partidos de centro
Em outro flanco, Zucco quer se aproximar dos partidos de centro que foram derrotados na eleição. O objetivo é atrair para a base o MDB, o PSD, o PSDB e o União Brasil, formando maioria consolidada na Assembleia e isolando as siglas de esquerda.
Falaremos com eles numa segunda etapa. Não terão espaço no primeiro escalão, mas podem estar conosco no governo. Se quiserem participar, terão espaço.
LEANDRO SONNE
Futuro chefe da Casa Civil.
O primeiro desafio do futuro governo na Assembleia será aprovar o orçamento para 2027. A peça orçamentária enviada pelo governador Eduardo Leite está sendo revisada pela equipe de transição e deve apresentar mudanças profundas em relação ao texto original.
Em função das alterações, há receio de que haja enfrentamento entre a base atual do governo Leite e os deputados alinhados com a futura gestão Zucco. A expectativa é de que o orçamento seja votado na segunda semana de dezembro.
Veja os principais nomes já anunciados
- Secretaria da Casa Civil — Leandro Sonne
- Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural — Paulo Herrmann
- Secretaria de Educação — Roni Vieira
- Secretaria da Cultura — Liliana Cardoso
- Secretaria de Segurança Pública — general da reserva Mauro Sinott
- Secretaria de Proteção e Defesa Civil — Capitão Martim (Republicanos)
- Secretaria de Obras, Logística e Infraestrutura — General Rogério Siqueira
- Procurador-Geral do Estado — Rafael Orozco
- Gestor de projetos estratégicos — Luis Carlos Heinze (PP)
- Líder de governo na Assembleia Legislativa — Guilherme Pasin (PP)
Fonte: GZH
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