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Equipe liderada por pesquisador gaúcho descobre nova espécie de felino, a primeira em 100 anos

  • Data: 17/set/2026

Um pequeno gato selvagem das florestas de neblina da Bolívia foi reconhecido como uma nova espécie pela ciência por uma equipe internacional coordenada pelo biólogo Eduardo Eizirik, professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre.

É o primeiro felino atual, ou seja, não fóssil, descrito formalmente em mais de um século. O trabalho foi publicado nesta quinta-feira (17) na revista científica Current Biology.

O animal recebeu o nome científico de Leopardus tilcayo e vive nas Yungas bolivianas, uma faixa de florestas montanhosas úmidas na transição entre os Andes e a Amazônia. É um bicho pequeno:

  • Mede entre 42,5 e 50,5 centímetros da cabeça ao fim do corpo
  • Tem de 25 a 26,5 centímetros de cauda
  • Pesa cerca de 1,4 quilo, menos do que um gato doméstico médio
  • Tem pelagem marrom-clara, mais escura na linha da coluna, com grandes rosetas irregulares

No mesmo estudo, os pesquisadores identificaram uma nova subespécie, encontrada nas Yungas do Peru e batizada de Leopardus tigrinus antisuyo. O termo "antisuyo" faz referência a uma das regiões do antigo Império Inca, que abrangia a área onde o animal ocorre.

Para surpresa dos cientistas, os dois novos felinos não são parentes próximos: ocupam ramos distintos de uma árvore evolutiva mais complexa do que se imaginava.

Cinco espécies onde se via uma
A principal mudança trazida pelo trabalho não está apenas na descrição do tilcayo, mas no rearranjo de todo o grupo. Os gatos-do-mato conhecidos em inglês como tiger cats eram tratados, até recentemente, como uma única espécie amplamente distribuída pela América do Sul.

O sequenciamento de genomas mostrou que, na verdade, são cinco espécies diferentes, uma delas dividida em duas subespécies:

  • Leopardus tilcayo, espécie descrita agora
  • Leopardus guttulus, o gato-do-mato-pequeno
  • Leopardus emiliae
  • Leopardus pardinoides
  • Leopardus tigrinus, dividido em duas subespécies, uma delas também identificada no novo estudo

A confusão é antiga. Esses gatos fazem parte do que os biólogos chamam de espécies crípticas: animais muito semelhantes na aparência, mas que apresentam diferenças genéticas profundas.

— São animais que seguem histórias evolutivas independentes há centenas de milhares ou até milhões de anos. Essa semelhança visual fez com que diferentes espécies fossem, durante muito tempo, confundidas e classificadas como uma só — explica Eizirik, coordenador do estudo.

No caso do tilcayo, a separação é bem mais antiga do que a aparência sugere. As análises indicam que a linhagem do felino boliviano se separou dos demais gatos-do-mato há cerca de 1,4 milhão de anos, ainda no Pleistoceno.

Não se trata, portanto, de uma população que apenas adquiriu diferenças de pelagem nos últimos séculos, mas de uma linhagem que segue uma trajetória evolutiva própria há mais de um milhão de anos.

Primo que vive no Rio Grande do Sul
Uma das cinco espécies reconhecidas pelo estudo é velha conhecida dos gaúchos. O Leopardus guttulus, o gato-do-mato-pequeno, ocorre no Estado principalmente em áreas de Mata Atlântica. Tem hábitos noturnos, sobe em árvores com facilidade e chega a três quilos.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), organização responsável pela Lista Vermelha global de espécies ameaçadas, classifica o animal como vulnerável. A mesma categoria é atribuída ao gato-do-mato-pequeno na lista estadual do Rio Grande do Sul.

O nome guttulus nasceu aqui. Foi cunhado em 1872 pelo naturalista alemão Reinhold Hensel, a partir de um exemplar coletado em matas gaúchas. Por mais de um século, porém, o animal foi tratado como uma subespécie do gato-do-mato-do-Nordeste.

Quem ajudou a desfazer o engano foi o próprio grupo de Eizirik. Em 2013, um estudo publicado na Current Biology, conduzido pela geneticista Tatiane Trigo durante o pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sob orientação de Thales de Freitas e do pesquisador da PUCRS, mostrou que as populações do Sul e do Nordeste não trocavam genes e eram, portanto, espécies distintas.

O artigo publicado nesta quinta-feira é o desdobramento mais recente dessa linha de pesquisa, que já dura mais de duas décadas no laboratório da universidade gaúcha.

Do refúgio boliviano ao holótipo da espécie
A história do Leopardus tilcayo começou com um filhote encontrado por um morador da região de Nor Yungas, na Bolívia, em 2016. O macho foi levado ao refúgio de animais La Senda Verde e recebeu o apelido de "Tigrino", porque todos acreditavam se tratar de um exemplar de Leopardus tigrinus.

A análise genética contou outra história. O felino não pertencia à espécie imaginada: representava uma linhagem evolutiva distinta, até então não reconhecida pela ciência.

O animal que era conhecido por um apelido acabou se tornando o holótipo de Leopardus tilcayo, o exemplar usado como referência oficial para a descrição da espécie na literatura científica. Ele permanece no santuário e é o único indivíduo da espécie que se sabe existir sob cuidados humanos.

O nome escolhido para o felino também vem das Yungas. Tilcayo é a denominação usada pelas comunidades locais para se referir ao animal. Os pesquisadores decidiram preservá-la na nomenclatura científica como forma de reconhecimento aos saberes tradicionais dessas populações.

Genomas de museu para reconstruir a história
Para chegar às conclusões, os cientistas sequenciaram e analisaram genomas completos de 38 indivíduos de diferentes regiões da América do Sul. Oito eram exemplares históricos preservados em museus da Europa e dos Estados Unidos, alguns coletados há mais de um século.

A estratégia de extrair material genético de coleções antigas é chamada de museômica. Ela permitiu acessar populações que hoje quase não são avistadas na natureza.

O recurso ajudou a resolver um problema antigo na classificação desses gatos. O grupo havia sido descrito originalmente, no século 18, a partir de animais do Escudo das Guianas, região onde esses felinos raramente são vistos atualmente. Sem material daquela população, chamada de população-tipo, qualquer reorganização do grupo ficava incompleta.

O estudo obteve os primeiros dados genéticos disponíveis dessa população. Os genomas confirmaram que semelhança física não significa parentesco recente.

As diferentes espécies seguiram trajetórias evolutivas independentes, enquanto a aparência semelhante é resultado de pressões ambientais parecidas, e não necessariamente de uma história evolutiva comum.

Conta da conservação muda de tamanho
O rearranjo tem efeito prático sobre a conservação. O que antes era tratado como uma espécie amplamente distribuída passa a ser entendido como um conjunto de cinco espécies, cada uma com área de ocorrência, características e necessidades próprias.

Na prática, populações que pareciam protegidas pela abundância do grupo como um todo podem ser mais frágeis do que se calculava.

Entre as principais ameaças estão:

  • Perda e fragmentação de habitat
  • Caça
  • Doenças transmitidas por animais domésticos
  • Efeitos das mudanças climáticas sobre os ambientes onde vivem

As análises genômicas apontaram ainda baixa diversidade genética em algumas das espécies, condição que pode reduzir a capacidade de adaptação a transformações ambientais rápidas.

— Este é um estudo que evidencia o quanto ainda há para se descobrir sobre a biodiversidade do planeta. Mesmo entre animais carismáticos e conhecidos como os felinos, espécies podem permanecer desconhecidas durante séculos. Descobrir e entender estas espécies é vital para que também saibamos como protegê-las — comenta o pesquisador da PUCRS.

A pesquisa reuniu cientistas da PUCRS e de instituições do Brasil, da Bolívia, do Peru, da Bélgica, da Colômbia, dos Estados Unidos e do Reino Unido. Assinam o trabalho, entre outros, o geneticista belga Jonas Lescroart, que fez doutorado em parceria entre a PUCRS e a Universidade de Antuérpia, e a bióloga boliviana Paola Nogales Ascarrunz, exploradora da National Geographic.

Quantos tilcayos existem nas Yungas, ninguém sabe. Paola está instalando armadilhas fotográficas nas florestas bolivianas para tentar registrar a espécie em vida livre e levantar dados sobre distribuição, comportamento e uso de habitat.

Fonte: GZH

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