Pelotas integra estudo internacional sobre o avanço do câncer de intestino em jovens
Historicamente associado à terceira idade, o câncer de cólon e reto (colorretal) vem registrando um avanço preocupante entre adultos com menos de 50 anos em todo o mundo. Para entender as causas desse aumento precoce, Pelotas tornou-se peça-chave de um estudo internacional de alta complexidade envolvendo a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e o Hospital Universitário São Francisco de Paula (Husfp), da Universidade Católica de Pelotas (UCPel).
A iniciativa integra o projeto Prominent, parceria da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC, na sigla em inglês), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), com o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e as instituições locais.
A investigação científica busca identificar a presença de assinaturas mutacionais no DNA tecidual dos pacientes — em especial, alterações causadas pela colibactina, uma toxina produzida por cepas específicas da bactéria Escherichia coli. Essa alteração genética pode ser o gatilho para o desenvolvimento de tumores antes da faixa etária habitualmente esperada.
O diferencial da população de Pelotas
A escolha de Pelotas como centro de coleta do grupo controle (pessoas sem a doença) deu-se pela existência das coortes de nascimento da UFPel, um dos acervos epidemiológicos mais completos do mundo. O estudo foca em cerca de 160 voluntários assintomáticos da Coorte de 1982, que completam 44 anos em 2026.
A doutora Simone Guaraldi, pesquisadora do Programa de Carcinogênese Molecular do Inca e especialista em cirurgia oncológica e endoscopia digestiva, destaca que esses participantes estão na janela exata indicada pelos novos consensos de saúde para o rastreio preventivo.
— A idade recomendada para a primeira colonoscopia baixou de 50 para 45 anos justamente por conta do aumento dos casos precoces. Reunimos uma população acompanhada desde o nascimento, que possui dados detalhados sobre uso de antibióticos, tipo de parto e amamentação, e que está no momento perfeito para fazer o exame — explica a pesquisadora.
A coordenação da busca ativa dos voluntários e a análise dos dados epidemiológicos ficam a cargo do epidemiologista Bernardo Horta, professor do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel, ao lado de sua equipe.
Operação e impacto clínico imediato
A etapa prática ocorre no Serviço de Endoscopia Digestiva do Husfp, onde são realizadas as colonoscopias e a retirada de amostras de tecido do cólon direito e esquerdo.
O médico endoscopista Lysandro Nader, responsável técnico pelo serviço no Husfp, ressalta a complexidade logística para viabilizar os procedimentos com total segurança.
— Envolvemos uma equipe multidisciplinar com médicos endoscopistas, anestesistas, enfermagem, equipe de recepção e patologia. O paciente recebe o preparo, transporte e acompanhamento completo. Para o hospital universitário, é o cumprimento exato da nossa missão de unir ensino, pesquisa e assistência pública — pontua.
Além de alimentar a pesquisa científica, os exames têm gerado benefícios clínicos imediatos para a comunidade local. Durante os testes e na fase atual de expansão, os médicos diagnosticaram e removeram pólipos em participantes que não apresentavam qualquer sintoma.
Em um dos casos, o exame identificou um foco de carcinoma instalado em um pólipo, permitindo a cura do paciente antes que a doença evoluísse para um estágio avançado.
Logística internacional de amostras
As amostras biológicas e de sangue colhidas em Pelotas são armazenadas temporariamente no Centro de Pesquisas Epidemiológicas Dr. Amílcar Gigante. Em seguida, o material é enviado sob rigoroso controle de temperatura para o Inca, no Rio de Janeiro. De lá, as amostras seguem para a sede da Iarc, na França, e posteriormente para o Instituto Sanger, nos Estados Unidos, onde serão feitos os estudos de sequenciamento genômico de última geração.
Os dados de alterações genéticas revelados pelo sequenciamento serão cruzados com as informações epidemiológicas da coorte através de plataformas de análise de dados. A expectativa dos pesquisadores é que os resultados ajudem a consolidar estratégias de prevenção e diagnóstico precoce contra o câncer de cólon nas próximas gerações.
Fonte: GZH
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