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Açaí no RS? Conheça como é a colheita do fruto nativo da Mata Atlântica no litoral gaúcho

  • Data: 18/jun/2026

Em meio à riqueza das florestas, habita um fruto nativo da Mata Atlântica que pouca gente sabe existir no Rio Grande do Sul. Parente do açaí amazônico e famoso pela sua polpa consumida como doce, o açaí-juçara é capaz não só de gerar renda aos agricultores, mas de evitar a extinção de uma árvore que é típica do bioma brasileiro.

O "açaí gaúcho", com muitas aspas, é o fruto da palmeira-juçara (Euterpe edulis) — diferente do fruto cultivado na região Norte do país, que vem da palmeira da espécie Euterpe oleracea. Da juçara, tradicionalmente se extrai o palmito, produção alvo de polêmica por conta do seu caráter extrativista. A alternativa pelo uso da fruta, que não implica na derrubada da árvore, é uma opção socioambiental ao seu manejo.

No litoral norte gaúcho, onde ficam concentrados, os cachos apinhados do fruto roxo e redondinho dividem a paisagem com bananais e outros cultivos silvestres. Em geral, as árvores estão inseridas em sistemas agroflorestais de plantio, que são aqueles que combinam agricultura e meio ambiente. O modelo de produção é visto como uma alternativa importante de preservação em meio aos desafios climáticos.

O sistema é aplicado na Agroindústria Morro Azul, no interior de Três Cachoeiras, no Litoral Norte. Na propriedade de cerca de oito hectares, o cultivo de açaí-juçara aliou preservação ambiental à fonte de renda para a família. Do fruto, os agricultores fazem polpa congelada e outros itens, como doces de açaí combinados com banana.

— Só conseguimos estar aqui porque outros antes de nós já cuidaram. E o fato de ter essa área conservada com o manejo de agroecologia é o que nos faz conseguir ficar. Isso fortalece a área e possibilita que a gente continue trabalhando — diz Marcelo Nunes Vieira, agricultor e um dos nomes à frente da Morro Azul.

Cinco pessoas da família participam do trabalho na propriedade, da colheita ao processamento da polpa. Em atividade desde 2002, a agroindústria processa 20 toneladas de açaí por safra. Além de açaí, passas de banana, banana chips, mariola e doce de banana estão entre os alimentos produzidos no local.

Todo sábado, os produtos da família são vendidos na Feira Ecológica de Porto Alegre, na Redenção. Às quartas, os itens são expostos em outra feira na Cidade Baixa. Os produtores também entregam seus itens em lojas especiais da Capital e da Serra.

— É uma satisfação para nós, de certa forma, cumprir uma missão. Produzir alimento saudável e, da mesma forma, preservar o ambiente, cuidar da diversidade, podendo gerar renda e permanecer no meio rural — diz Anelise Becker, esposa de Marcelo.

A produção no RS
Apesar da associação natural do açaí ao verão pelo seu consumo gelado, é entre o outono e a primavera que ocorre a colheita de açaí-juçara no Rio Grande do Sul. A safra vai de abril a setembro, mas tende a ser mais forte no mês de junho.

De coloração mais forte que o açaí-palmeira, o roxo do açaí da Mata Atlântica é um atrativo para a indústria de sorvetes e de gelados em geral. Já em relação a sabor, o gosto característico de fruta silvestre é semelhante entre ambas as variedades.

Não há uma estimativa exata da Emater de quantos hectares da árvore são cultivados no Estado. Mas sabe-se que estão concentrados entre Caraá e Mampituba, e que mais de 500 famílias são envolvidas de alguma forma com a produção das plantas.

Para o gerente técnico estadual da Emater, Luis Bohn, mais do que finalidade comercial, o cultivo do fruto da palmeira juçara tem caráter socioambiental. A árvore nativa já esteve quase extinta em algumas regiões de Mata Atlântica por causa da exploração do palmito, mas a opção pelo fruto preserva as plantas vivas.

— À medida que o produtor encontra uma alternativa econômica que não só extração de palmito, mas de fruta, isso gera um valor para quem a preserva — diz Bohn.

Tudo isso só é possível, acrescenta o gerente técnico, porque a Secretaria do Meio Ambiente (Sema) desenvolveu uma alternativa de regularizar a produção dentro dos sistemas agroflorestais. Até então, uma lei proibia a utilização da árvore nativa da Mata Atlântica. A regularização da Sema é o que dá segurança aos agricultores.

— O certificado de agrofloresta legitimiza o nosso trabalho — diz Marcelo.

Como funciona a colheita
Na propriedade em Três Cachoeiras, a colheita do açaí é totalmente manual. Com o auxílio de uma escada, o produtor sobe até o topo da palmeira, onde posiciona a vara de colher, um artefato carinhosamente chamado pela família de "Sputnik".

O instrumento artesanal é como uma vara de foice acoplada a um cesto telado, onde os cachos ficam recolhidos até a descida. O balançar da árvore neste primeiro contato faz saltar açaí para todos os lados.

— Chuva de açaí! — como bem descreve a filha do produtor, Helena, de sete anos, atenta ao ofício do pai.

Já no chão, um a um os cachos são passados no debulhador, outra "engenhoca" de invenção familiar. Este segundo equipamento é como um trilho dentado preso a um caixote de madeira, que reúne o açaí colhido para depois ser transportado em novas caixas de plástico até a agroindústria.

Cacho a cacho, os frutos são apanhados delicadamente para o melhor proveito possível. O que escapa do cesto e cai na terra vira muda para novas árvores e comida para os animais que vivem pela mata, como pássaros e ouriços.

Como alimento, o açaí é considerado rico em antioxidantes, gorduras saudáveis e fibras. O seu consumo está associado ao menor risco a doenças degenerativas, à proteção do coração e ao fortalecimento do sistema imunológico.

Fonte: GZH

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