Notícias

Fique por dentro das notícias da cidade e região.

Por que a doação de sangue é tão importante para a saúde?

  • Data: 16/jun/2026

A chegada do inverno traz um desafio que vai além das baixas temperaturas. Em meio ao aumento de doenças respiratórias e a menor circulação de pessoas, os hemocentros enfrentam uma queda significativa nas doações de sangue. Em alguns períodos, a redução pode chegar a 30% em comparação com o restante do ano.

Além de mobilizar a população para esse ato de solidariedade, o Dia Mundial do Doador de Sangue, celebrado em 14 de junho, também levanta uma reflexão: por que, mesmo diante de uma necessidade constante, a doação de sangue ainda não se tornou um hábito para a maioria dos brasileiros?

Uma única bolsa de sangue pode salvar até quatro vidas. É a partir do sangue doado que são realizadas cirurgias de emergência, tratamentos oncológicos, partos de risco e atendimento diário de pacientes com doenças crônicas.

Sandra Regina Santos da Silva é uma das pessoas que têm a vida transformada diariamente pela doação de sangue. A aposentada, de 72 anos, convive com diabetes e enfrenta uma rotina marcada por desafios de saúde. Moradora de Gravataí, tem apenas um rim e não possui bexiga. Desde fevereiro deste ano, realiza sessões de hemodiálise duas vezes por semana — procedimento que utiliza um equipamento para filtrar o sangue e substituir parte das funções desempenhadas pelos rins.

No início, eu não sabia o que era o procedimento e, às vezes, era resistente a fazer. Agora, quando chega o dia da hemodiálise, já me arrumo cedo e fico esperando para ir à clínica. Toda vez que recebo sangue, sinto que ganho um pouquinho da minha vida de volta. Quando volto para casa, descanso um pouco, mas no dia seguinte já estou bem, graças a Deus — conta Sandra.

Como o sangue é utilizado

Depois da coleta, o sangue passa por um rigoroso processo de triagem. Cada bolsa é submetida a testes para identificar uma série de doenças, independentemente de o doador saber ou não se é portador delas. Nessa etapa, também são determinados o tipo sanguíneo e a presença de agentes infecciosos que possam contraindicar o uso do material.

O médico clínico geral cooperado da Unimed Porto Alegre Sergio Brodt explica que, após a aprovação nos testes, o sangue passa por uma etapa de fracionamento, na qual é separado em hemácias, plasma, plaquetas e crioprecipitado. Cada componente é acondicionado em bolsas estéreis e armazenado pelo banco de sangue, que distribui as unidades conforme a necessidade dos pacientes.

Esses quatro hemocomponentes são utilizados diariamente em hospitais de alta demanda. Sem isso, as unidades de saúde não funcionam. Também trabalhamos em rede e compartilhamos estoques. Se faltam plaquetas em um hospital e há disponibilidade em outro, as unidades são encaminhadas. Existe uma central que faz todo esse controle para garantir que cada paciente receba o hemocomponente adequado quando necessário — afirma.

Como funciona a doação

O processo de doação de sangue é mais simples do que muitos imaginam. Em cerca de uma hora, qualquer pessoa apta pode concluir todas as etapas do procedimento: cadastro, pré-triagem — quando são verificados sinais vitais e níveis de hemoglobina para identificar possíveis casos de anemia —, entrevista clínica confidencial, coleta de sangue e, por fim, um lanche de recuperação antes da liberação.

Homens podem doar sangue até quatro vezes por ano; mulheres, até três. Em ambos os casos, é necessário respeitar o intervalo mínimo entre as doações: 60 dias para homens e 90 dias para mulheres.

Onde doar

Em Porto Alegre, a unidade do Hemocentro do Estado do Rio Grande do Sul atende para doação de sangue de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h e um sábado por mês, das 8h às 12h, na Avenida Bento Gonçalves, 3722. É necessário agendar pelo site.

Pelo site do Hemocentro também é possível agendar a doação nas cidades de Passo Fundo, Pelotas, Santa Maria e Tramandaí. Hospitais em diversas cidades também são pontos de coleta. Confira na unidade de saúde do seu município.

Para onde vai uma única doação

Hemácias

Transportam oxigênio para todo o corpo:

cirurgias
traumas
anemias graves

Plaquetas

Fragmentos celulares que ajudam a coagulação:

pacientes com câncer
doenças hematológicas

Plasma

Parte líquida do sangue, rica em proteínas:

queimaduras
distúrbios de coagulação
produção de medicamentos

Doação exige mobilização

Ampliar o número de doadores de sangue é uma questão de saúde pública, e o incentivo à prática precisa ser contínuo. É o que defende o médico hematologista cooperado da Unimed Porto Alegre Antonio D'Almeida, que transformou esse compromisso em rotina: doa sangue três vezes por ano e leva seus alunos aos hemocentros como forma de estimular a prática desde a formação médica.

Temos que liderar pelo exemplo. A mídia também tem um papel fundamental na divulgação dessa causa. Sempre que são mostradas histórias de pessoas que dependem de transfusões frequentes, a população se mobiliza — afirma.

D´Almeida acredita que a informação é o principal caminho para construir uma cultura sólida de doação, transformando doadores ocasionais em regulares. Embora o percentual de doadores de repetição — aqueles que realizam pelo menos uma nova doação em até 13 meses — seja de 46,5% na rede pública e privada, segundo dados da Anvisa, o especialista avalia que ainda há espaço para ampliar esse índice.

Existe uma deficiência até dos próprios bancos de sangue porque, muitas vezes, a pessoa faz uma doação e não recebe nenhum retorno ou agradecimento. É preciso pensar em estratégias para fidelizar esses doadores — avalia.

O que é mito e o que é verdade?

Muitas pessoas deixam de doar sangue por receio ou por informações incorretas que circulam há anos. Conhecer os critérios e entender como funciona o processo é fundamental para aumentar a segurança e a confiança dos doadores. Confira alguns dos principais mitos e verdades sobre a doação de sangue.

Doar sangue dói

Mito: o processo é seguro e rápido. Em geral, a pessoa sente apenas um leve desconforto no momento da picada da agulha.

Consumir álcool impede a doação

Verdade: é necessário aguardar pelo menos 12 horas após o consumo de bebida alcoólica para doar sangue. Em casos de ingestão mais elevada, o período de espera pode chegar a 24 horas.

Existe risco de contrair doenças durante a doação


Mito: todo o material utilizado na coleta é estéril, descartável e de uso único, eliminando o risco de contaminação.

Menores de idade podem doar sangue


Verdade: jovens de 16 e 17 anos podem doar, desde que estejam aptos fisicamente e apresentem autorização formal dos responsáveis legais.

O organismo não repõe o sangue doado
Mito: os componentes do sangue são recuperados. O plasma é reposto em cerca de 24 horas, as hemácias em quatro semanas e os estoques de ferro levam de oito semanas (homens) a 12 semanas (mulheres) para normalizarem.

O organismo funciona normalmente após a doação
Verdade: o volume coletado não compromete a saúde do doador. No entanto, é importante respeitar o intervalo mínimo entre as doações: 60 dias para homens e 90 para mulheres.

Quem tem tatuagem pode doar sangue

Verdade: pessoas com tatuagens, piercings ou procedimentos de micropigmentação podem doar sangue, desde que aguardem o prazo geral de seis meses após a realização do procedimento.

Doar sangue dá direito a folga ou atestado no trabalho
Verdade: a legislação trabalhista protege o doador voluntário. Conforme o artigo 473 da CLT, o funcionário pode faltar ao serviço por um dia a cada 12 meses para doar sangue, sem prejuízo no salário e benefícios. Para garantir a justificativa, basta apresentar ao RH o comprovante emitido pelo hemocentro no momento da coleta.

Quem pode doar sangue

Ter entre 16 e 69 anos. Menores de 18 anos devem estar acompanhados pelos pais ou por um responsável legal
Pesar, no mínimo, 50 kg, desconsiderando o peso das vestimentas
Não estar em jejum e evitar alimentos gordurosos antes da doação
Ter dormido pelo menos seis horas nas últimas 24 horas
Não ter ingerido bebidas alcoólicas nas 12 horas anteriores à doação
Não fumar por pelo menos duas horas antes da doação

Fonte: GauchaZh/Ministério da Saúde/Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul

Outras notícias