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"Podemos melhorar a educação ao levar em conta resultados da neurociência”

  • Data: 08/jun/2026

Desvendar o cérebro das crianças e entender os processos cognitivos pode contribuir para garantir melhorias na educação. É o que diz o pesquisador Stanislas Dehaene, que esteve em Porto Alegre na semana passada para participar da Brain Week, evento sobre saúde mental e neurociência.

Considerado uma das principais autoridades em estudos sobre como o cérebro aprende, Dehaene é professor do Collège de France e diretor da Unidade de Neuroimagem Cognitiva do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França, reconhecido por seu trabalho pioneiro sobre as bases neurais da cognição humana.

— Esta é a minha mensagem hoje. É possível melhorar muito a educação levando em consideração os resultados da neurociência, especialmente da ciência cognitiva — destaca.

Em entrevista coletiva à imprensa ele ainda defendeu a proibição do celular nas salas de aula como medida importante para aprimorar os índices de aprendizagem no país:

— Existem apps educativos excelentes. Mas, para muitas crianças, tela significa TikTok, que oferece um conteúdo muito superficial. O principal problema é o tempo excessivo nas redes sociais e a substituição das interações sociais por isso. Uma das coisas mais importantes que as crianças aprendem nos primeiros anos é justamente a linguagem e a interação social. Com o celular, elas perdem parte disso — argumenta.

O neurocientista explica que o isolamento social compromete a aprendizagem, sobretudo nos primeiros anos da trajetória escolar. Por isso, deixar de lado os dispositivos móveis e interagir com os próprios colegas e professores na escola é fundamental para o desenvolvimento cognitivo dos pequenos.

Impacto do sono e da frequência escolar
Questionado sobre os impactos da enchente do Rio Grande do Sul em 2024 na alfabetização das crianças, que passaram meses longe das salas de aula por conta do desastre climático, Dehaene destacou a importância de manter a continuidade no ensino.

Conforme o especialista, há um algoritmo de aprendizagem no cérebro humano baseado em vários princípios. Um deles é distribuir a aprendizagem ao longo dos dias, com períodos de sono entre as experiências:

— É muito importante termos experiências frequentes de aprendizagem espalhadas ao longo do tempo. Uma das descobertas mais fascinantes da ciência é que aprendemos enquanto dormimos. Não aprendemos informações novas durante o sono, mas consolidamos aquilo que aprendemos durante o dia. A cada noite de sono, aprofundamos as representações mentais construídas durante o aprendizado — afirma.

Portanto, cuidar para que os filhos mantenham frequência regular na escola e tenham uma rotina de sono de qualidade é fundamental para consolidar os estudos. Sobretudo nos primeiros anos da trajetória escolar, uma vez que, conforme o cérebro vai se desenvolvendo, a neuroplasticidade diminui, o que dificulta para aprender coisas novas.

— Quando uma criança deixa de frequentar a escola, perde oportunidades preciosas. Existe um limite para a plasticidade cerebral e, quando chega à adolescência, essa plasticidade começa a diminuir. Cada dia conta. Os pais devem estar convencidos da importância de enviar seus filhos à escola todos os dias, esse é o caminho para aprender — explica Dehaene.

Novas estratégias de alfabetização
Referência mundial em alfabetização e neurociência, Dehaene também defendeu que seja disseminado no Brasil um método de alfabetização focado em fonemas, que consiste em ensinar às crianças a relação entre letras e sons e como eles se combinam para formar sílabas e palavras.

Isso porque, no cérebro, essa conexão é a principal responsável pela aprendizagem da leitura. Batizada de “Kalulu”, referência a uma figura do folclore africano, essa estratégia pedagógica já foi aplicada em experimentos na França, na Colômbia, na Argentina e no Brasil, com envolvimento de pesquisadores da Universidade Federal do ABC e do Collège de France, como Dehaene.

Os investigadores constataram que as crianças que utilizam esse método aprendem a ler muito mais rápido do que com as metodologias tradicionalmente adotadas no Brasil.

— Em muitas escolas brasileiras, o ensino da leitura consiste apenas em mostrar palavras para que as crianças as memorizem. Décadas de pesquisa demonstraram que isso não funciona, não é o método adequado. Precisamos melhorar o ensino e convencer os pais a promoverem um pouco de leitura todos os dias — ressalta o especialista.

A medida pode ser um dos segredos para melhorar os índices de alfabetização na idade certa no país. Conforme dados recentes do Ministério da Educação, Porto Alegre é a capital com pior índice de alfabetização na idade certa, ou seja, até o final do 2º ano do Ensino Fundamental.

Cérebro dos bebês é "avançado"
Por meio de seus estudos, Dehaene constatou que, mesmo na infância, o cérebro humano já possui uma estrutura complexa. Pouco depois do nascimento, as conexões de um cérebro adulto já estão presentes no bebê, conforme exames feitos em recém-nascidos.

Isso ajuda a compreender a complexidade da aprendizagem humana, diferentemente da aprendizagem de máquina:

— Nos sistemas de inteligência artificial (IA), praticamente não existe estrutura inicial. O sistema precisa ser alimentado com milhões de exemplos. No cérebro do bebê não é assim. O cérebro já nasce altamente estruturado, tanto em termos anatômicos quanto em termos de predisposições cognitivas.

Isso significa que o cérebro já nasce pronto para aprender, com noções básicas que facilitam a aprendizagem. Os bebês já nascem preparados para aprender linguagem e símbolos, o que os torna "máquinas extraordinárias de aprendizagem", na visão do especialista. Para Dehaene, essa é uma das principais diferenças da inteligência humana para a IA.

Fonte: GZH

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