Golpe do falso advogado: ferramenta criada em Caxias do Sul ajuda a rastrear criminosos
O aumento dos casos do chamado “golpe do falso advogado” tem preocupado autoridades policiais e profissionais do Direito em todo o Rio Grande do Sul. Em Caxias do Sul, delegacias registram diariamente ocorrências relacionadas ao crime, que consiste em criminosos se passarem por representantes jurídicos para enganar vítimas e solicitar pagamentos indevidos.
Segundo a Polícia Civil, não há um levantamento específico do número de casos porque o crime é registrado como estelionato, que engloba outros tipos de golpe. Ainda assim, delegados das distritais de Caxias do Sul afirmam que a prática tem se tornado cada vez mais frequente. Segundo o titular da 3ª Delegacia, Edinei Albarello, a média em 2026 tem sido de quatro a cinco ocorrências por dia relacionadas ao golpe.
O golpe funciona da seguinte forma: o criminoso acessa informações públicas de processos judiciais e entra em contato com a vítima utilizando foto, nome e até linguagem semelhante à do profissional real que atua na causa. Os golpistas geralmente informam que a pessoa venceu uma ação judicial e que existe um valor a ser liberado. Em seguida, pedem o pagamento de taxas ou custas processuais para que o dinheiro seja recebido.
Diante desse cenário, o advogado criminalista de Caxias do Sul Leonel Ferreira desenvolveu uma ferramenta para tentar reduzir os impactos da fraude. A iniciativa surgiu depois que a própria imagem dele foi utilizada por criminosos em um golpe.
— Descobrir que estavam usando a minha foto para enganar pessoas foi uma sensação de impotência muito grande. Então eu decidi tentar reagir — conta.
O sistema criado por ele utiliza automações e inteligência artificial para monitorar contas suspeitas, reunir provas digitais e auxiliar na derrubada de perfis usados pelos golpistas.
Para Ferreira, o crime ganhou força principalmente a partir da popularização dos processos judiciais digitais e do acesso facilitado às informações disponíveis na internet.
— Eles (os golpistas) usam dados reais do processo. Sabem quando a ação foi ajuizada, os pedidos feitos e até detalhes da causa. Isso gera confiança na vítima — explica Leonel.
Segundo o criminalista, além de pedir dinheiro, os criminosos também tentam obter dados bancários, senhas e até códigos de verificação enviados por SMS.
— Muitas pessoas acabam entregando informações pessoais ou até o código de seis dígitos do WhatsApp. Quando isso acontece, o criminoso assume a conta da vítima e passa a aplicar novos golpes contra familiares e conhecidos — relata.
O advogado afirma que o avanço da inteligência artificial agravou ainda mais o problema.
— Hoje eles conseguem utilizar inteligência artificial para escrever mensagens mais convincentes, clonar voz e até criar falsas audiências virtuais com imagens simuladas de juiz, promotor e advogado. Isso torna o golpe muito mais sofisticado — diz.
Sistema monitora golpistas 24 horas por dia
A solução funciona a partir de denúncias enviadas pelos próprios profissionais ou clientes. Quando alguém recebe uma mensagem suspeita, encaminha o print (captura de tela) para um robô automatizado no WhatsApp.
A partir daí, o sistema passa a agir automaticamente.
— O bot (robô automatizado) acessa o perfil suspeito, salva imagens, monitora mudanças de foto e transforma aquilo em prova digital válida para futura investigação ou ação judicial — explica.
Segundo Ferreira, o sistema também utiliza “hash”, uma espécie de assinatura digital única de um arquivo, para comprovar que aquela imagem não foi alterada.
— O "hash" funciona como uma identificação matemática da imagem. Se um único detalhe for alterado, o código muda completamente. Isso ajuda a garantir autenticidade à prova — afirma.
Essas informações são registradas em blockchain (tecnologia usada para registrar informações digitais de forma permanente e imutável), permitindo que a evidência possa ser utilizada futuramente em investigações policiais ou processos judiciais.
Derrubada de perfis e alertas preventivos
Além de registrar provas, a ferramenta também faz pedidos automáticos de “takedown” (solicitação de remoção de conteúdo ou perfil) à Meta, empresa responsável pelo WhatsApp.
— Conseguimos automatizar os pedidos de derrubada dos perfis maliciosos e tivemos bons resultados. Em muitos casos, as contas são removidas ou suspensas temporariamente — afirma.
O sistema também monitora continuamente os números utilizados pelos golpistas.
— O criminoso não usa apenas uma foto. Hoje ele pode utilizar a minha imagem, amanhã a de outro colega. A ferramenta percebe essa troca e consegue avisar os profissionais antes mesmo de o golpe começar a ser aplicado — relata.
Segundo Ferreira, o projeto começou em fevereiro deste ano com cerca de dez profissionais em Caxias do Sul e hoje já conta com aproximadamente 60 usuários em toda a Serra.
Os participantes também recebem diariamente uma lista de perfis suspeitos para denunciar em massa ao WhatsApp.
— Quando várias pessoas denunciam o mesmo perfil, aumenta a chance de o algoritmo da Meta derrubar aquela conta. Mesmo que seja uma suspensão temporária, isso já quebra a dinâmica do golpe — explica.
Próximo passo é ajudar vítimas a recuperar dinheiro
O criminalista afirma que pretende ampliar a ferramenta futuramente para auxiliar diretamente as vítimas. A ideia é orientar usuários sobre o MED (Mecanismo Especial de Devolução), criado pelo Banco Central para tentar bloquear e devolver valores transferidos em golpes via Pix.
— Esse processo precisa ser muito rápido. O dinheiro circula por várias contas em poucos minutos. Então a intenção é usar automação e inteligência artificial para ajudar as vítimas a agirem imediatamente — afirma.
O advogado calcula já ter investido cerca de R$ 50 mil no projeto, incluindo equipamentos, estrutura e ferramentas tecnológicas.
— Meu objetivo é que isso continue gratuito para a advocacia e, no futuro, também para a sociedade. O que está em jogo aqui é a confiança das pessoas nas relações digitais — conclui.
Campanha busca combater o golpe
A seccional gaúcha da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RS) e a Polícia Civil lançaram em fevereiro uma campanha para conscientização e educação da população para se proteger dos criminosos.
A iniciativa, com o lema “A melhor proteção é a informação”, conta com:
- criação de uma comissão especial na OAB;
- palestras em todo o Estado;
- mobilização para regulamentação da lei estadual que prevê a disciplina de educação digital na grade curricular das escolas; e
- divulgação de vídeos nas redes sociais com apoio de figuras públicas.
- A união das instituições se dá, principalmente, nas palestras que são abertas ao público e acontecem nas sedes das 107 subseções da OAB espalhadas pelo RS. Elas contam com a participação de um advogado, uma advogada e um policial.
A OAB também busca que a Meta, empresa dona do WhatsApp, Facebook e Instagram, faça um aporte tecnológico para verificação de identidade nas fotos utilizadas nos perfis das redes sociais, principalmente no WhatsApp. A ideia é que isso impeça que os golpistas utilizem as fotos dos advogados no aplicativo.
Na ocasião do lançamento da campanha, o presidente da OAB/RS, Leonardo Lamachia, também mencionou que o Conselho Federal da OAB está fazendo reuniões com empresas de telefonia. O objetivo é tentar dificultar o acesso de golpistas a chips de linhas telefônicas.
O golpe do falso advogado é um dos explicados pelo especial Olha o Golpe, de GZH. A página detalha como são aplicados e como se proteger das principais fraudes virtuais registradas no RS atualmente. O objetivo é auxiliar as pessoas a se protegerem.
Para se proteger do golpe, as orientações são:
- Converse com o seu advogado pelos canais que já possui e desconfie de abordagens feitas por números desconhecidos
- Não envie informações pessoais, bancárias ou documentos sem confirmar que o pedido é verdadeiro
- Tome cuidado com pedidos urgentes. Desconfie de custas inesperadas e supostos créditos judiciais
- Contate o tribunal diante de qualquer dúvida e busque confirmação por meios oficiais
- O que fazer ao identificar ou sofrer um golpe:
- Caso seja confirmado que se trata de um golpe, a Polícia Civil orienta que tanto a vítima quanto o advogado que teve a identidade fraudada façam um boletim de ocorrência.
Os registros podem ser feitos pela internet, na Delegacia Online.
Fonte: Pioneiro / GZH
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