Crise no agro leva à apreensão de máquinas agrícolas no RS em meio à alta da inadimplência
Em meio à forte retração nas vendas, a percepção é de que tem crescido no Rio Grande do Sul o número de apreensões de tratores e colheitadeiras para pagamento de dívidas rurais. Retrato da dificuldade financeira enfrentada por produtores e fornecedores.
Dados divulgados nesta quarta-feira (27) pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) atualizam essa dificuldade. A receita líquida do setor caiu 17,9% no acumulado de 2026 até abril, na comparação com o mesmo período do ano passado. As vendas internas recuaram ainda mais: 21,5%.
Na ocasião, o presidente da Câmara de Máquinas Agrícolas da Abimaq, Pedro Estevão, resumiu 2026 como um “ano bastante desafiador”:
— Estamos caindo cerca de 18% neste quadrimestre. O principal fator é a desvalorização cambial. As commodities estão em preços normais, mas a mudança no câmbio reduziu a renda do produtor. E isso afeta diretamente os principais mercados de máquinas agrícolas, como soja, milho, algodão, café e açúcar.
Segundo ele, a combinação entre juros elevados, custo de produção pressionado, incertezas climáticas e inadimplência crescente fez o produtor priorizar o custeio da safra, deixando investimentos para depois.
É justamente essa inadimplência que começa a aparecer de forma mais visível no interior gaúcho. Escritórios especializados em Direito Agrário relatam aumento nos pedidos judiciais de arresto e apreensão de maquinários para quitação de débitos com fornecedores de sementes, fertilizantes e defensivos.
Sócio-fundador do MMT Advogados, Alexandre Martini lembra que a situação é resultado de uma sequência de frustrações climáticas e financeiras vividas pelo agro gaúcho desde 2019:
— Até o ano passado, muitos juízes estavam sendo mais complacentes com o devedor, acreditando numa retomada do negócio. Mas a cadeia inteira começou a sofrer demais.
No caso deste escritório, a atuação é nos dois lados: tanto para produtores quanto para fornecedores. Segundo Martini, muitas empresas passaram a recorrer às liminares de arresto porque também enfrentam dificuldades para manter o fluxo de caixa.
Um dos casos envolve uma família produtora de São Borja que teve máquinas apreendidas após três anos de renegociação de dívidas. A empresa credora, fornecedora de insumos, possui mais de 90 execuções em andamento e já conseguiu dez apreensões de maquinário somente neste ano.
— É uma tristeza para os dois lados. A família perde o maquinário, que é sua atividade-fim. E a empresa, que nem trabalha com máquinas, se vê obrigada a apreender patrimônio para tentar colocar algo no caixa. É a miséria passando de uma mão para outra — resume o advogado.
Martini explica que, inicialmente, os pedidos judiciais buscavam garantir a retenção da produção agrícola. Com a colheita já realizada em muitos casos e sem produto disponível, os credores passaram a mirar máquinas e outros ativos.
Na avaliação de Estevão, da Abimaq, duas medidas poderiam ajudar a destravar o mercado: a renegociação das dívidas rurais em discussão no Congresso Nacional e a criação de mecanismos mais robustos para enfrentar perdas climáticas.
— Esses R$ 81 bilhões que estão sendo discutidos para renegociação podem ter efeito importante em Estados como Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Hoje, o que vemos é o produtor sem conseguir pagar as contas — afirma ainda o dirigente.
Fonte: GZH / Carolina Pastl
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