Porto Alegre descobre calçamento escondido por mais de um século.
Achado ocorreu durante escavações do projeto de revitalização do Quadrilátero Central, no Centro Histórico.
A menos de um metro abaixo do asfalto por onde circulam pedestres e veículos todos os dias, estava escondido um trecho da Porto Alegre de 1912. O calçamento de pedras irregulares de granito, com tons azulados e avermelhados, ficou soterrado por um século até aparecer nas escavações da Rua Doutor Flores, no Centro Histórico.
Na segunda-feira (9), a prefeitura inaugurou ali o primeiro sítio arqueológico sinalizado em espaço aberto da cidade. Quem passa pela rua já pode ver as pedras antigas no próprio piso. A descoberta aconteceu em agosto de 2023, durante o monitoramento arqueológico que acompanhou obras de substituição da rede de água do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), parte do projeto de revitalização do Quadrilátero Central, nas nove vias do Centro Histórico que a prefeitura vem reformando.
Duas placas informativas e um totem com ilustrações foram instalados em frente ao número 76 da via. O sítio está na calçada, aberto para qualquer um ver.
Quando as equipes escavaram a Rua Doutor Flores, encontraram dois tipos de pavimento sobrepostos: um calçamento de paralelepípedos regulares e, abaixo dele, camadas de pedras irregulares.
Mais fundo ainda havia tubos de concreto moldado com 400 milímetros de diâmetro, chamados de manilhas, usados para conduzir água ou esgoto.
Instalados provavelmente também no início do século XX, eles ainda funcionam como parte da rede subterrânea da cidade. Sob aquela calçada, circula até hoje um sistema construído há mais de cem anos.
— A obra é acompanhada por arqueólogos e museólogos. Durante as escavações, percebemos que existiam camadas de calçamentos mais antigos abaixo do pavimento atual. Quando fomos fazer o novo pavimento para melhorar a "caminhabilidade", decidimos preservar esse trecho e contar a história da nossa cidade — explica o secretário municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi), André Flores.
A sinalização foi desenvolvida pela consultoria em arqueologia Arqueo-Tri, com ilustrações da artista visual Ana Luiza Koehler.
— A relevância do achado foi prontamente reconhecida pela Smoi. Tivemos apoio na proposta de implantação de sinalização patrimonial no local, possibilitando que os cidadãos de Porto Alegre tenham acesso a esse importante legado histórico — afirma o arqueólogo Marcelo Lazarrotti, da Arqueo-Tri.
A Porto Alegre que estava sendo inventada:
O período representado pelo achado, entre 1912 e 1928, foi um dos mais agitados da história urbana de Porto Alegre.
A cidade vivia sob o longo mandato do intendente José Montaury de Aguiar Leitão, que governou de 1897 a 1924, e passava por uma transformação acelerada: instalação simultânea de rede de esgoto, água encanada, iluminação elétrica, bondes, gás e telefone subterrâneo.
Tudo isso exigiu que as ruas do Centro fossem escavadas repetidamente, por diferentes empresas, em sequência.
Para não paralisar o trânsito enquanto as obras avançavam, a prefeitura da época adotou o calçamento de pedras irregulares como solução temporária, mais fácil de remover e reinstalar do que os grandes blocos de granito anteriores.
O próprio Montaury registrou o problema em relatório: as ruas que mais sofreram foram justamente as que tinham calçamento antigo de grandes pedras, porque a remoção constante para obras subterrâneas destruía o nivelamento das vias.
Só quando esses serviços foram concluídos veio o calçamento definitivo de paralelepípedos, já na gestão seguinte, de Otávio Rocha.
A empresa Dahne, Mazzini & Cia., contratada por concorrência pública, pavimentou diversas ruas da cidade entre o fim de 1926 e fevereiro de 1928, incluindo a Doutor Flores.
O calçamento de pedras irregulares ficou soterrado e assim permaneceu por quase um século.
A rua em si é ainda mais antiga. Ela surgiu por volta de 1814, quando se chamava Santa Catarina, e já aparecia na primeira planta conhecida de Porto Alegre, datada de 1838.
Recebeu o nome atual em 1873, em homenagem ao médico Luiz da Silva Flores, que morava na via.
Novas descobertas no horizonte
A prefeitura não descarta que outras escavações no Centro revelem achados semelhantes. Segundo André Flores, esse tipo de pavimento antigo existe em várias ruas da região, mas a ideia não é transformar cada achado em ponto de visitação.
— Não vamos sinalizar tudo para não vulgarizar a importância. O objetivo é que as pessoas entendam o significado histórico desses registros — diz o secretário.
A descoberta integra um conjunto maior de investimentos na área central. Desde o início da gestão do prefeito Sebastião Melo, em 2021, a prefeitura investiu cerca de R$ 80 milhões no Centro Histórico. Há também um estudo em andamento sobre o potencial turístico da região, que deve orientar novas ações.
— Agora temos o primeiro sítio arqueológico devidamente sinalizado em uma das principais vias do Centro Histórico de Porto Alegre. A história da construção da cidade segue preservada, e ela é de todos nós — finaliza Flores.
FONTE GZH - Leonardo Martins
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